Como gente importante morreu domingo. Assim como Tancredo Neves. Como Ayrton Senna. Como mulher grávida, esperou a mudança de lua. Morreu dia 28 de São Judas, no mês de Março do Golpe Militar.Morreu depois que todos nós - ao redor dele - percebemos claramente que há um Deus e que nós não somos esse Deus.
Não existe aquela coisa de "ele vai esperar eu chegar pra morrer, porque eles sempre esperam todos os filhos chegarem".
Nada de "se eu sair ele morre". Muito menos o "ele morre do lado de quem ele mais gosta".
Não existe o se despedir dele, dar adeus e ele morrer.
Não existe o médico com a certeza de uma data. De um tempo.
Existe sim, um mistério.
Inacreditável quando quem está ali morrendo, é teu pai.
O mistério que te faz falar alto com um pai inconsciente há dois dias e então, ele responde. O mistério que faz com que, num dia qualquer, depois de 16 dias de hospital, tua mãe deixe a camisa que ele vai usar no caixão passada, pendurada num cabide do lado de fora do guarda-roupa. Dia da morte.
O mesmo mistério que faz com que a voz da tua mãe – se despedindo - mude a respiração do teu pai.
Existe um mistério delicioso quando você sabe que ele já sabia de tudo antes mesmo da gente saber. Sabia que não voltaria do hospital. Nunca mais. Tinha medo que o papagaio – insuportável – morresse. Deixou tudo arrumado. Escolheu pra quem minha mãe deveria dar o relógio de bolso dele. E o casaco azul marinho. E escolheu a roupa do enterro. A mesma das Bodas de Ouro que ele quase não usava pra não gastar.
Existe um mistério que faz com que a gente converse com ele em pensamento. E faz ele ouvir.
Mistério nos amigos dele... e que amigos ... do vizinho surfista, o Romeuzinho; passando pelos “excluídos” da vizinhança e pelos filhos do afilhado – carinhosissimos - de brincos nas orelhas e boné de skatista; aos amigos velhinhos, da idade dele, que derramaram lágrimas de jovens amigos e apertaram o coração descrente.
Existe um mistério na morte – ou na vida – que faz com que ele morrendo aos poucos faça com que cada um de nós vá morrendo um pouco também. Um tempo que meu Pai deixou pra gente. Um tempo que poderia ser de 3 ou 6 meses e que foi de 6 dias.
No dia da morte minha mãe se despediu dele e saiu.
Fui do lado do rosto dele e me despedi também. Conversei um pouco. Só fiz uma promessa: a de cuidar da minha mãe (a grande amada dele).
Dei um beijo no rosto dele e pela primeira vez me sentei num banquinho, no pé da cama. Era uma hora da tarde.
Primeiro eu deixei de ouvir a respiração forçada, ofegante, sacrificada. Passou a ser uma respirada baixinha, com 8 segundos de diferença entre uma aspiração e outra. Audível porque a TV estava desligada. Seu Anézio, o companheiro do quarto, dormia e dona Rosa e Neuza - acompanhantes dele - tinham ido almoçar.
Eu recitava mantras tibetanos.
Passei a olhar para o peito dele. Para aquele retângulo branco de gaze, feito curativo, que prendia a agulha do soro e da medicação. O grande curativo demorava para subir, e baixado, ficava quieto oito segundos.
Um ... dois ... três ... quatro ... cinco ... seis ... sete ... oito ...
Eu recitava mantras.
Um ... dois ... três ... quatro ... cinco ... seis ... sete ... oito ... e nove .... e dez ....e voltou a subir! GRAÇAS A DEUS!
Como Graças a Deus?
Como?
É claro! Quem quer que o pai morra? Quem quer que o pai pare de respirar?
Mas eu queria... Tinha dito isso a ele de outras formas. De outros jeitos. Bastava de sofrimento. De dor. De luta. Bastava de preocupação. Deus estava grudado em meu Pai. Pronto pra indicar um caminho melhor do que uma desesperada cama de hospital com um câncer espalhado pelo fígado, estomago, rim e intestino que comia meu Pai há mais de cinco anos. Eu queria sim, que ele parasse de respirar.
Parei de recitar, levantei e pedi desculpas a meu Pai.
“Desculpa pai. Desculpa! Tenho dito que se o senhor quiser ir, pode ir. Já me despedi. Já lhe garanti cuidar da mamãe, mas assim, quando chega a hora, a gente descobre que não é bem verdade. Eu queria o senhor aqui com a gente. Aqui comigo...
Mas agora não pai. Noutra vida quem sabe. Agora descansa. Relaxa um pouco. Não se preocupa com nada não. Deus vai arranjar um lugar bem bonito pro senhor, bem perto dele. Agora não luta mais não! O senhor já lutou tanto... e por tanta coisa na vida ...
Pode ir pai. De verdade. Eu estava com medo mas agora não estou mais não. O Mano já se despediu do senhor, a mamãe já se despediu e se o senhor quiser ir, vai. Eu prometo que não vou fazer escândalo, que vou chorar só um pouquinho.
Quando o senhor for embora eu vou continuar aqui sentada, recitando mantras até acabar o mala. Não vou me levantar daqui enquanto eu não estiver bem calma. Mas pode ir pai. Eu fico aqui”.
Dona Rosa voltou com a Neuza do almoço e eu disse pra elas que meu pai estava indo. Neuza sentou, abriu um livrinho e começou a ler e dona Rosa começou a rezar baixinho.
Chegou Conceição. Me olhou e eu disse a mesma coisa pra Conça. Como ela fazia sempre nos últimos sete dias ela perguntou se eu queria um café. E Conça foi buscar o café.
Continuei recitando mantras e minha prática budista me ajudou. Visualizei aquela cama de hospital com meu pai nela, sendo rodeada de Mestres, de Lamas, de deuses, de espíritos iluminados dançando. Chagdud Rinpoche do trono dele no Khadro Ling observando e recebendo meu pai. Vi Nossa Senhora do Monte Serrat tirar o manto e cobrir meu pai – ele tão devoto dela - e continuei sem parar a recitar para Tara.
Não tirei os olhos do meu pai nem por um segundo e não sei quando o peito dele parou de subir e descer.
Não sei quando aquele coração que a gente sempre achou tão enfraquecido depois de 3 infartos e 2 AVCs – e que se mostrou uma montanha - parou de bater. Eu continuei recitando. Com o peito do meu pai imóvel. Só sei que quando olhei o relógio novamente eram 14:46 hs. Continuei recitando. Cumprindo um dos votos que fiz pro meu pai.
Mesmo quando terminei o mala continuei imóvel naquele banquinho.
Imóvel por dentro e por fora. Vazia.
Quando consegui me mexer, Dona Rosa estava com os olhos fixos em mim e Neuza continuava lendo o livrinho.
Olhei pra Conceição de pé do meu lado com o café.
“Conça, meu pai foi embora”.
Nestes últimos dias percebi que todo filho é filho.
Que todo pai é Pai.
Os que se amam, claro.
Eu não perdi meu pai. Perdi uma lenda. Um mito.
Pai não é concreto. É Abstrato.
A proteção não está no abraço, muito menos na conta bancária.
A felicidade não esta em dentes escancarados nem em gargalhadas sonoras.
O vínculo não está no sobrenome.
Agora tenho certeza de que aquele fio mágico que eu sentia unindo a gente é de verdade um fio e é de verdade mágico.
Sem meu pai o fio não existe. A outra ponta fica chicoteando no ar e deixa essa dorzinha aguda que não passa. É o peso de uma solidão.
É isso que chamam de luto.
É isso que chamam de órfão.
Meu pai chamavam de Luciano.
Agora eu não sei.
Só sei dessa certeza de que assim, nunca mais.